Menina Virgem

novembro 21, 2009

O Cemitério – caso verdade

Arquivado em: conto — Tags:, , — meninavirgem @ 2:12 am

Nunca visito cemitérios. Não gosto. Bem, como posso gostar? Cemitério americano, tudo verdinho e sem construções, é uma beleza. Agora, com cada morto rico querendo ser mais imponente que o outro e cada indigente querendo ser mais desgraçado que o outro, o cemitério brasileiro nos brinda com uma visão poluída, cheiro ruim e uma chance grande de algum rato morder o nosso pé. Não gosto de cemitério e não vou mesmo! Ou melhor, não ia. Sempre há uma vez que você não escapa de ter de fazer algo que odeia.

Nesse último Finados tive de ir. Ou melhor, um dia antes do Finados. Não havia ninguém para fazer os “serviços da família”, aquela coisa de você limpar túmulo, colocar flor etc. É sempre bom arrumar a casa em dia de visita. Como os mortos são preguiçosos, e deixam tudo para os vivos, lá fui eu.  Minha mãe deu as instruções corretas. Fez até um mapa. Segui o mapa e cheguei ao túmulo … errado! Peguei o celular e chamei minha mãe. Que continuou afirmando que era para eu encontrar o túmulo na esquina da alameda São Jorge com a travessa Petúnia. Olhei: Petúnia. Olhei: São Jorge. Olhei aos lados: nada, só morto completamente desconhecido para mim. Diante da insistência da minha mãe no telefone, resolvi não importuná-la. Era melhor eu achar o lugar certo e deixar a polêmica da moradia dos mortos da família de lado, provavelmente minha mãe havia feito uma tremenda confusão – foi o que pensei.

Aquilo foi uma tarefa cansativa. Pois um serviço fica bem mais chato quando não gostamos do lugar em que ele tem de ser feito. E lavar túmulo é o tipo da coisa que não dá para fazer no “lava car” da cidade, tem de ser no cemitério. Rodei o cemitério inteiro. Ave Maria! Um cemitério grande mesmo, tinha morto ali que não acabava mais. E terminei a peregrinação misturada à caça ao defunto familiar exatamente onde comecei: Petúnia com São Jorge. Sentei cansadíssima. Tão cansada que deitei no túmulo. E quando virei os olhos para o lado… aiii que susto! Era a foto do meu avô! Eu estava bem em cima do túmulo da família. Mas como que eu não havia visto da primeira vez? É claro que liguei imediatamente para minha mãe e perguntei se eu havia ligado umas duas horas antes. Ela confirmou. Claro, começou a fazer perguntas, mas eu falei para ela que havia me enganado, que estava tudo correndo bem e que ia lavar o túmulo.

Mas que lavar túmulo! Eu estava exausta e completamente pasma comigo mesmo. Como eu teria ficado ali, naquela esquina, olhado tudo e não visto nenhum nome familiar e, agora, duas horas depois, eu estava ali, diante do túmulo esperado? Entre estar louca e ser enganada por forças do além, qual a melhor opção?

Fiquei um bom tempo ali, sentada no túmulo do meu avô, olhando para a foto dele. Ele parecia sorrir para mim. Recuperei as forças.

Lavei o túmulo. Coloquei flores. Acabei tudo quando já estava anoitecendo. Havia passado metade do dia no cemitério. Prometi que não voltava mais ali. Nem morta! Seria cremada. Êta lugar chato! E enganador. Saí do cemitério e fui direto para a casa da minha mãe. Chegando lá, quando ia começar a contar a história para ela, fui interrompida. Minha mãe disse, “ah filha, você tem de me desculpar, eu falei o endereço errado para você hoje, o túmulo da família fica bem na entrada do cemitério, ao lado do portão, e ninguém vê porque todo mundo espera encontrar os túmulos já nas ruas. Ele está fora do esquadro, como que se fosse apenas um monumento inicial do cemitério”.  Aí eu gritei! “Mas mãe, eu achei depois o túmulo no lugar do endereço, não pode ser, você errou é agora, não da primeira e segunda vez que falou do mapa”. E minha mãe chamou minha avó. “Vem cá Dona Zita, vem cá”. “Olha só a Marcinha contando que o seu marido aprontou a mesma coisa do ano passado, fica puxando aquele túmulo para lá e para cá e confundindo as pessoas”. E a vó Zita: “Por isso que eu, já prevenida, falei para você marcar também a esquina da Petúnia com a São Jorge, pois eu conheço bem todas as pegadinhas daquele velho safado – ali naquela esquina tá enterrada a vagabunda da amante dele, a Terezona”. “Êta véio com fogo no pinto, não acaba nem depois de morto”.

No ano que vem, eu garanto, eu juro, alguém vai lavar lá o túmulo. Já disse para minha mãe que não vou.

Menina Virgem

Aproveito aqui e faço uma sugestão para os que gostam de filosofia, de coisa inteligente na TV, e de bom humor. É o Loucuras Filosóficas. Na Just TV, toda quinta às 19 horas. A TV funciona aqui ó: http://justtv.com.br É com meu filósofo predileto, Paulo Ghiraldelli Jr. O apresentador é o poeta maluco Alexandrelli, e a organização do programa é da Francielle Maria Chies: http://twitter.com/franciellechies

Outra dica. Fui uma das primeiras a falar do caso Uniban, aqui neste blog, quando ninguém ainda sabia que a coisa toda iria sair na imprensa. Agora, acompanhado, vejo a bela resposta do filósofo Paulo Ghiraldelli ao artigo estranho de Renato Janine Ribeiro: confiram aqui!

6 Comentários »

  1. Realmente, Márcia,

    Cemitério é um dormitório (koimitérion, em grego) em que nunca ninguém levanta para q se arrume a casa…é chato isso…e é um cheiro de coisa velha..nem é só coisa podre…é coisa velha…

    Se foram forças do Além?? Se foram, espero q vc tenha sacudido os pés na hora de sair…kkkkkk

    Bjs!!

    Comentário por Ebrael Shaddai — novembro 21, 2009 @ 4:37 am

  2. ah essa do avô mudar o túmulo de lugar está formidável.

    verdade? acredito, mas com muito senso de humor…mórbido.
    prendam o túmulo do velhote com uma corrente no portão e para o ano vejam se ele solta.

    bjs

    Comentário por sara levy lima — novembro 23, 2009 @ 2:38 pm

  3. Adorei sua narrativa menina Márcia! Seu avô é um figuraça, sinto pena dos
    vizinhos defuntos dele!
    abçs!

    Comentário por Nogueira — novembro 29, 2009 @ 10:00 pm

  4. Menina,
    tomei contato com seu blog assim meio que acidentalmente e fiquei surpreso.
    Você escreve muito bem, bem solta, seu texto tem a fluidez daqueles pra quem é fácil escrever. E tudo escrito com grande correção, o que é raro nesses tempos de net. E sei do que falo, sou professor e, hoje em dia, as pessoas acham bonito escrever errado
    Tenho também um blog, bem mais modesto que o seu, o qual tento manter sempre atualizado, se tiver um tempinho e quiser perdê-lo visitando-o, será um honra: http://www.amarretadoazarao.blogspot.com
    Continue escrevendo, estarei passando por aqui, de vez em quando, pra conferir.
    abraços

    Comentário por Azarão — dezembro 5, 2009 @ 9:26 pm

  5. Oi menina,

    Obrigado por e adicionar como amigo,agora falando deste texto do cemitério é muito engraçado, vc escreve muito bem.
    parabéns pelo blog, muito bom.

    José Ailton
    http://www.extremosulgospel.com.br

    Comentário por josé ailton — dezembro 30, 2009 @ 9:14 pm


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