Menina Virgem

setembro 23, 2009

A onda do blogueiro marionete

Filed under: internet — Tags:, , , , , , — meninavirgem @ 7:50 pm

danceParece natural, agora, que não seja necessário mais diploma de jornalismo para a atividade jornalística. Parece correto, agora, que todos nós possamos lidar com a informação, principalmente na era da Internet e da profusão dos blogs e coisas similares. Assim, donas de casa se transformam em poetizas, funcionários públicos aposentados viram repórteres e até mesmo analfabetos imitam o que Paulo Coelho já fazia, ou seja, copiam coisas da própria Internet e “publicam”, ou seja, repassam. A notícia e o comentário, antes ciosamente trabalhados por uma editoria, agora está em meio a uma festa da melancia em porta de cemitério no dia de Finados.

Ah! É a liberdade de expressão! A liberdade de expressão – viva a liberdade. Quem não gosta dela? Eu mesma, professora de filosofia, agora não preciso mais ficar restrita à minha sala de aula para ser ouvida. Tenho meu blog. Ah! Tenho ainda mais a comemorar: nem preciso mais ficar devendo favores sexuais para orientadores e pessoas ligadas a órgãos de fomento de pesquisa para publicar. Tenho meu blog, e isso garante minha fala pública e preserva minha xoxota. Que beleza! Nunca imaginei que iria nasce em uma época tão boa!

Ninguém vê problema na liberdade. Inclusive, muita gente que adora a não-liberdade, que cultiva sonhos ditatoriais e autoritários, agora dá vivas ao que chamam de blogosfera.

Mas o aprendizado da liberdade não é fácil. A Internet faz parecer grande e verdadeiro o que é pequeno e mentiroso. O exemplo claro é o pensamento da extrema direita política no Brasil. Figuras que não seriam aceitas em jornal algum, por inventarem coisas cabeludas e serem, elas próprias, marcadas pelas suas simpatias com perspectivas nacionalistas extremadas e até mesmo de gostos xenófobos e fascistas, viraram divulgadores de “notícias”. Então, aquele monte de repórteres frustrados (sim, de repórter e louco todo mundo tem um pouco), que querem “bombar” seus blogs, correm para essas notícias e as reproduzem em seus espaços no WordPress e no Blogger e coisas do gênero. Nem mesmo citam a fonte de onde tiraram as notícias. Nem mesmo colocam links mais. Vale tudo na orgia da pseudo-informação.

Sites financiados por grupelhos, visivelmente capciosos, induzem pessoas simples e meninas que se acham sabidas (como eu) a reproduzirem notícias. São “notícias”, não notícias. O desejo que move esses blogueiros aprendizes de feiticeiros é simples: aparecer no topo da lista de um medidor de êxito nos vários sites que agrupam blogs ou links. A ingenuidade de achar que se está “passando a notícia” para que “todos saibam” move um monte de blogueiros. Poucos blogueiros realmente escrevem. A maior parte, dentro do esquema do analfabetismo funcional brasileiro, apenas repassa notícias, sem qualquer preocupação crítica. Como procuram ser originais, imaginam poder passar notícias que ninguém conhece, e então caem nas mãos dos produtores de informações falsas – os que colocam exatamente o que não está nos grandes jornais –, e que não possuem a responsabilidade jurídica pelo que publicam.  Aliás, quando possuem, nada têm a perder. Pois um blog não custa nada. Um jornalista pode assinar um jornal de Internet e, uma vez processado, pode simplesmente nem ser notificado, por morar no exterior etc. Ou seja, a Internet é, realmente, um reino do esconde-esconde.

Lembro de uma notícia de uns anos passados. Um grupo nacionalista colocou na Internet um mapa falso, dos Estados Unidos, em que a Amazônia aparecia ligada aos Estados Unidos. Esse mapa estaria sendo entregue, em livro, nas escolas americanas. Oh, como isso transitou por aí. Qualquer brasileiro escolarizado e não imbecil saberia que os Estados Unidos não se tornaram uma grande nação fazendo isso, ensinando uma geografia tola e ideológica. Um povo que ensinasse suas crianças assim não seria um povo capaz de criar o que criou: a literatura de um Henry James, a filosofia de um John Dewey, o cinema de um Tarantino e tudo o mais que encanta o mundo e que vem dos Estados Unidos. É um completo desconhecimento do que é a política e vida americanas acreditar que os republicanos são fascistas e que os democratas são iguais aos republicanos. No entanto, por falta de informação básica e completa acriticidade, essa notícia falsa do tal mapa correu como pólvora na Internet. Professores reproduziram em sala de aula essa loucura. Nessa hora, as ideologias da extrema esquerda e da extrema direita se uniram em “defesa da Amazônia”, para “denunciar os americanos”. Mas a coisa não morreu aí.

Não tardou para que um grande jornal, o Estadão, fizesse o papel do blog irresponsável. O jornal publicou a coisa! Bom, finalmente, então, houve a reação da verdade. O resultado foi o seguinte: a Embaixada Americana mostrou que tudo aquilo era falso. O Estadão se retratou. Mas a coisa não parou não! Depois de dois anos, eu ainda recebia em listas da Internet o tal mapa! E o pior, ele era passado por professores universitários. Sim, já não era coisa de blogueiro sem formação não! Nem eram garotas ingênuas trocando foto de Orkut. Depois de dois anos, professores universitários ainda passavam a esdrúxula notícia.

Como se pode ver, a praga de se transformar em aprendiz de feiticeiro pode pegar qualquer um.

De lá para cá, os grandes jornais, eles próprios, colocaram blogs e começaram a se responsabilizar mais pelo que é da Internet e como é que é da Internet. Ou seja, aquelas coisas básicas que se aprendiam em escolas de jornalismo, voltaram a importar: quais as fontes, como a notícia foi produzida, o que ela diz é plausível ou não, para onde ela vai etc. O diploma de jornalista talvez não ajude em nada, realmente, para salvar um jornal. Mas o espírito com que se faz um jornal sério precisa permanecer vivo e chegar à consciência do blogueiro. A questão, agora, portanto, é outra. Ou melhor, é a mesma de sempre. A questão é de responsabilidade individual. Cada um deveria começar a pensar: quão culta sou para me dar o direito de ter um blog? Acho que posso ter um blog, eu mesma, que sou tão ciosa ao que deve ser transmitido para crianças, então, como posso agir aqui no meu blog de modo irresponsável? Sim, pois a questão é não fazer a auto-censura sobre sexo. As pessoas adoram achar que a única coisa que vale ser restrita em blog é sexo. Ora, sexo é o que não tem importância. A questão é a de saber ser polícia de si mesma ao passar qualquer informação. Cada um deveria olhar no espelho e dizer: meu blog tem poucos leitores, não vou aumentar esses leitores publicando merda, e vou tentar me reeducar com os que sabem mais que eu. Vou voltar para a escola, vou ler outras figuras, vou consultar escritores etc. Ninguém é deus. E na verdade, os deuses também erram. Mas, cada blogueira não pode sair da cozinha e sentar na frente do computador e dizer: “ah, agora sou escritora e jornalista” … e pimba, tasca lá coisa que ela própria não sabe de onde veio e como veio. Não se pode ficar aposentado, de chinelo, e dizer, “ah, eu sempre quis ser jornalista e não pude fazer faculdade, agora vou ter meu jornalzinho, meu blog” … e pimba, tasca na Internet qualquer coisa.

Ou todos nós, blogueiros, paramos de achar que podemos colocar coisas na Internet acriticamente, como bobocas, ou vamos destruir a liberdade que conquistamos, e que devemos, em parte, ao Bill Gates.

Se você é blogueiro ou blogueira e pega a notícia, por exemplo, que a freira assassinada na Amazônia, a Dorothy, era da CIA (veja aqui), e não sabe de onde veio essa “notícia”, e a coloca ali no seu blog achando que está fazendo grande coisa, saiba que essa notícia surgiu de outros sites que são os mesmos que produziram outras mentiras nacionalistas. Quem financia esses sites “independentes”? Qual a responsabilidade jurídica deles? Qual a razão de sempre atacarem os mesmos pontos? Ora, essas perguntas deveriam guiar o blogueiro que escreve pouco e que reproduz muito. Blogueiro não pode ser sinônimo de tolo. Blogueira não pode ser sinônima de maluca.

Menina Virgem

setembro 12, 2009

Você já viu um imbecil?

Filed under: Comportamento — Tags:, , , , , , , , , , , , — meninavirgem @ 4:02 pm

Cleo Pires lendo Paulo Coelho.Você já se encontrou com um imbecil? Sim, estou falando daquele cara que só tem certezas, que não tem dúvidas, que não é capaz de parar e dizer coisas do tipo: será que tudo é tão arrumadinho mesmo, como parece para mim? Deus no Céu, prontinho para me receber se eu for um bom menino e tiver fé. Aqui na terra, todos os problemas, se acreditarmos em Jesus, pronto, tudo se resolve. A mulher? Ah, a mulher deve ser casta, se não for, é vagabunda. E o filho dos outros? Ah, é bandido, se tem mais de 11 anos, tem tudo para ser bandido. E a juventude? Ah, não é como antigamente. Agora, são todos drogados. Poucos escapam. Precisam de educação. E os gays? Nossa, ofendem a Deus! O que fazer com os presos? Nossa, se estão na cadeia, a gente não deveria pagar nada, para quê dar comida para eles, com o nosso dinheiro! E o dinheiro que se perde na Igreja? Não se perde dinheiro lá, o pastor é quem pede, ele é homem de Deus.

Viu, você lembrou não é? Eis aí uma pessoa imbecil. Você já viu uma assim, não viu?

Quer ver mais uma pessoa imbecil? Esta: a que não quer reconhecer que esse imbecil aí acima é alguém que pode estar com o cérebro comprometido para o resto da vida. Ou por má alimentação na infância ou por um período longo, ainda na infância, sem estímulos inteligentes dos pais, há pessoas que são aparentemente normais, mas incapazes de qualquer tipo de pensamento onde exista uma dúvida. Tudo está estabelecido.

Essa imbecilidade tem graus. Do mesmo modo, ela se repete em outros níveis, inclusive em situações cultas, ou aparentemente cultas. Por exemplo, aquele professor de filosofia que é incapaz de entender o funcionamento de uma equação matemática e aquele professor de matemática que é incapaz de compreender uma sutiliza filosófica. Isso é mais burrice que imbecilidade, mas, em certo sentido, dá no mesmo: trata-se do enrijecimento do pensamento, a incapacidade de aprender a aprender e, enfim, uma hostilidade tremenda ao novo. Também aí, em certo sentido, há algo que é um tipo de imbecil.

Nos dois casos, o problema é que duvidar, ficar desconfiado, é impossível. E então, sem duvidar, ou duvidando somente daquilo que outros ensinaram a duvidar – a dúvida falsa, decorada, sempre na mesma direção – é um traço que faz muitos tenderem ao pensamento conservador, seja ele chamado de “direita” ou “esquerda”. As verdades são eternas. E nisso há os que fazem até a dúvida uma coisa eterna. Dizem: há de se duvidar. E ficam esperando o guru duvidar, para repetirem a dúvida. Você já não viu um imbecil assim? No trabalho, no escritório, no seio da família, em uma festa etc. – não viu? Pois é, são imbecis. Não há cura para eles.

Menina Virgem.

Tema: Silver is the New Black. Blog no WordPress.com.

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